Salvem a Amy

Durante a década de 1960, o mundo inteiro passou por grandes mudanças de comportamento e os efeitos puderam ser sentidos na política e na arte. A década de 70 foi uma grande ressaca guiada pelas desilusões e pelo fim da euforia. Aos poucos, aquela geração de hippies praticantes do amor livre e da experimentação de drogas foram se deparando com as epidemias sexualmente transmissíveis e com a escalada do tráfico de drogas.

O levante pop dos anos 80 apresentou ícones de fácil consumo e aos poucos as ideologias pasteurizadas foram postas a venda como refrigerantes nas prateleiras dos supermercados. A década seguinte anunciava a inércia de uma juventude “careta”, desiludida com as revoluções e consumida pela superficialidade do dance-pop, glam metal, e arena rock. Eram os netos da revolução.

Em 1991, o sorriso atormentador de Kurt Cobain e o grito dilacerante da música “Smells Like Teen Spirit apresentam o Nirvana como um soco no estômago da indústria fonográfica. Foi com o grunge, nascido na periferia da pobre Seattle, que o mundo se deparou com uma grave realidade e sentiu que suas crianças precisavam de ajuda. O suicídio de Kurt e a sua indisposição com os dólares do grande mercado musical mudou muita coisa e fez o mundo entender que a expressão jovem e a potencialidade da rebeldia juvenil não podem ser empacotadas em caixas de acrílico achatadas. Mais do que conhecer o que os garotos queriam, era preciso compreendê-los.

No entanto, o que houve de mais significativo na década passada, desfragmentou-se ainda nos seus primeiros passos. Quase quinze anos depois, uma nova geração se apresenta desligada dos pontos de vista contestadores e valorizando a apresentação pessoal e a individualidade (como já escrevi em postagens anteriores). O drama de Amy Winehouse é sintomático e pode descrever bem essa realidade.

Amy é a ultima boa surpresa da musica mundial. Ela rompe com suas colegas de FM, ao apresentar uma forte personalidade aliada a uma voz encantadora. Voz que aos poucos se cala devido a inquietação de sua dona que não viverá muito para ser ajudada. O estado lamentável como Winehouse se apresentou no Rock In Rio Lisboa (?), quando mal podia ficar de pé sobre o palco, foi uma das cenas mais chocantes que vi pela TV. Me entristece, perceber o que a música mundial está prestes a perder.

Semana passada a cantora foi internada mais uma vez por complicações decorrentes do uso abusivo de drogas. Ela passou 48 horas sem dormir e sofreu graves convulsões. O pai de Amy anunciou que ela sofre de enfisema, uma pesada inflamação pulmonar. Com apenas 24 anos, Amy Winehouse traz um preocupante histórico de uso de drogas pesadas.

Apesar de todo o drama pessoal, a cantora continua arrebatando fans de todo o mundo que se divertem com as suas crises e se reconhecem com o seu visual de noiva gótica pós-punk. O aprofundamento na sarjeta e o amor pelo marido presidiário são alguns capítulos da milionária novela que atrai olhares de todo o mundo para Amy. Ela tem potencial para ser reconhecida muito mais pela sua arte do que pela vida que escapa entre uma dose e outra de vodca.

Amy simboliza uma juventude que parece não trazer mais sonhos em sua bagagem e afirmam-se cada vez mais pela autoexposição. A exploração de uma tragédia  pode render muitos dólares e ser percebido apenas como um fato midiático. O mundo pode não perceber o fim de Amy como percebeu a morte de John Lennon, Sid Vicious ou Kurt Cobain. O mundo aplaude a tragédia de Amy evidenciada nos palcos. Ela precisa de ajuda. Nossos ídolos estão morrendo.

Amy Winehouse no Rock In Rio Lisboa:

Paulo Alencar
produção VIVA fortaleza

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