Amar sem ser amado

Dentre as muitas atrações da programação do Cine Ceará previstas para hoje, uma chama bastante atenção. O documentário em longa-metragem Waldick, Sempre No Meu Coração que conta a história do cantor popular que emocionou o grande público com sua forma dramática de cantar as dores de um apaixonado desprezado. Um típico “machão” brasileiro que não tem medo de demostrar suas dores.

O estilo das canções de Waldick atende pelo nome de Brega, título com o qual a elite cultural batizou a música do povão (a mesma moçada que teima em chamar João Gilberto de música POPULAR brasileira). Também eram conhecidas como Brega, as canções que permeavam a atmosfera das “casas de tolerância” ou de “má-fama” que alguns dos nossos avós costumavam freqüentar. Naquele tempo, canções populares como Eu Não Sou Cachorro Não eram mais conhecidas pelo termo “cafona”, adaptação do italiano “cafóne” que significa pobre, humilde, grosso, por aí…

Dizer que esses sucessos são “brega” (no sentido de chulo ou inferior) é puro preconceito. Analisando o sentimentalismo barato, os temas repetidos (normalmente um belo “chifre” dado por uma mulher insensível) e os clichês obrigatórios, estes clássicos da AM brasileira não deixam muito a desejar à turma dos sertanejos, pops e os emos da nossa música contemporânea. Eu Vou Tirar Você Desse Lugar, do grande Odair José – certa vez apelidado de “O Bob Dylan da Central do Brasil” – soava familiar apenas ao radinho de pilha dos motoristas de ônibus até ganhar os MP3 players da garotada na voz do grupo Los Hermanos. O brega mudou mesmo ou se tornou cult?

O próprio Odair José chegou a dizer que seu estilo de música já ganhou várias denominações (um mais “simpático” que o outro) como brega, música de p*** e música para empregada doméstica. Talvez pelo fato dos artistas do estilo estarem tão ligado à massa, não tiveram o reconhecimento da crítica dado aos universitários de festival.

Odair, Waldick e Nelson Nedes não eram tão engajados como Chico e Vandré, mas nem por isso foram poupados da perseguição da censura militar. Segundo Odair José, “Naquela época só não foi censurado quem não falava”. A canção Pare de Tomar a Pílula foi proibída de tocar nas rádios, pois os censores entendiam que a letra ia contra os bons costumes da família brasileira.

Ser popular nem sempre é certificado de falta de qualidade. Apesar da ascensão do “brega” devido o modismo dos bicho-grilos de plantão, temos que saber separar o bom e o ruim como fazemos em qualquer setor cultural. Brega por brega, prefiro Waldick Soriano a Celine Dion.

O documentário em 35 mm produzido ano passado, pela diretora e atriz Patrícia Pillar , vai rolar a partir das 19 horas no Cine Ceará 2008 (Cine São Luiz).

Eu Não Sou Cachorro Não – Waldick Soriano

Paulo Alencar
produção VIVA fortaleza

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: