Os caminhos de uma matéria

viva_menor.jpgQuem assiste a uma matéria na TV nem sempre tem idéia dos caminhos que são percorridos até que ela fique pronta, bonitinha para ir ao ar. Antes de começar nessa ‘vida’, eu também não tinha. Quer dizer, tinha uma vaga idéia. Sempre ficava pensando como seria o trabalho dos jornalistas para deixar uma matéria pronta.

Então agora que eu já descobri alguns segredos – afinal continuo num eterno aprendizado -, resolvi partilhar essa experiência com nossos amigos internautas.

Como nasce uma matéria? Na verdade ela pode nascer agora mesmo, enquanto assisto à TV e escrevo no computador. As matérias – ou ao menos a matéria-prima que as origina – estão o tempo todo a nossa volta. Ao jornalista, é importante buscar treinar a sensibilidade para perceber isso.

Para dar um exemplo mais concreto, pedi ajuda ao produtor Rafael Rodrigues para que ele me ajudasse a apontar duas reportagens que deram bastante trabalho pra produzir e cujo resultado final foi satisfatório.

Ele lembrou de duas ocasiões. Para ele, o VT exibido pelo Viva (na edição em que o programa chegou à centésima edição) sobre o tênis All Star deu certo trabalho. Nessa, ele atuou sozinho Num trabalho colaborativo feitos por ele e por mim (e também pelo produtor Adriano Queiroz), concordamos que a série de matérias ‘Os protagonistas do O Povo’, comemorando os 80 anos do jornal, foi um desses casos.

Então vamos começar pelos pés. Na semana passada, comemoramos no programa número 100, os 100 anos de vida do All Star. A dificuldade básica era encontrar entrevistados [chamamos de personagens] interessados no tênis, mas que não remetessem ao estereótipo do “rock star” ou do freqüentador de festas ao qual o produto em questão é associado comumente. Para fazer isso, temos que mobilizar amigos e colegas de trabalho, e ter a sensibilidade de enxergar quem poderia render uma boa história – e imagens também.

Nesse sentido, o VT teve um bom resultado, com uma boa variedade de locações e diversidade de depoimentos. Mas como a melhor história sempre surge de onde menos se espera, nesse caso não foi diferente. Na loja franqueada da cidade, em que se vendem mais de 170 estilos diferentes de All Star, a reportagem encontrou o César Freire, 17, que havia sido convidado pela Elisabete Pacci, proprietária, para a gravação da matéria.

Ele nos brindou com uma ótima “sonora” [entrevista] em que confessava ter usado All Star (um modelo azul!) no próprio batismo. Faltou só ele ter levado a foto! Mas o depoimento, em si, enriqueceu a matéria que, em geral, se beneficiou da boa vontade dos entrevistados e das boas imagens. Esse resultado recompensou uma produção que durou cerca de uma semana entre telefonemas, emails e pesquisas na internet.

Todo esse trabalhão, descrito nas linhas ai em cima, foi potencializado pela disposição com que o criativo repórter Fábio Monteiro encarou a pauta. Ele vestiu a camisa, digo, calçou o tênis, e ao fim de uma tarde zanzando por Fortaleza nos trouxe uma bela matéria.

Já na série de matérias ‘Os protagonistas do O Povo’, produzida pelo Rafael, Adriano Queiroz e por mim, o desafio era produzir matérias que estivessem a altura dos 80 anos do mais tradicional jornal do Ceará. Era fundamental fugir de alguns clichês. E ainda por cima, tinhamos pouco tempo entre os feriados de final de ano e a data de aniversário, 7 de janeiro de 2008.

Permito afirmar que dois foram os maiores desafios: agendar entrevistas com os protagonistas. Gente como Demócrito Dummar, Dona Lúcia e Luciana Dummar. Pessoas sempre muito ocupadas e com uma íntima relação com O POVO. Depois de uma sucessão de entrevistas desmarcadas, finalmente conseguimos ouvir os protagonistas dessa história.

A entrevista com o presidente do Grupo de Comunicação O POVO, Demócrito Dummar, surpreendeu quando, de pronto, ele avisou para a repórter ‘esquecer’ que ele ocupava a função de chefe maior do jornal. Ali, durante a conversa, ambos estavam de igual pra igual. Lógico que esse ‘detalhe’ não dá pra esquecer.

Nos corredores das empresas do grupo, “seu” Demócrito surpreende a muita gente ao afirmar, sem cerimônias, que em determinadas situações têm muito a ouvir dos demais, além de confiar a seus subordinados, sem medo de errar, decisões importantes. A sabedoria em delegar, em colocar-se a serviço do outro, foi aplicada de forma clara e segura quando ele afirmou, para a reportagem, que “quem comanda aqui são vocês”.

São detalhes de riqueza humana que compensam o árduo trabalho que precede uma entrevista.

A entrevista mais difícil foi com a presidente-executiva do grupo, Luciana Dummar. Às vésperas dos festejos no jornal, ela não tinha tempo de atender nossa equipe. Marcamos duas vezes, mas depois de muita insistência a entrevista aconteceu – com o deadline para a edição dos programas especiais nos nossos calcanhares.

A entrevista com a Lúcia Dummar, filha do fundador do jornal, Demócrito Rocha, teve um sabor todo especial. Além dela ter sido testemunha das transformações do jornal ao longo dos anos, sua lucidez e vigor, em plena casa dos 90 anos, nos impressionou.

Por essas e outras, daria para concluir que produzir para TV não é lá tão difícil; difícil é viver uma vida ou inventar algo digno de ser focalizado por uma câmera e ser visto por milhares de pessoas.

Emílio Moreno
Rafael Rodrigues
produção – VIVA fortaleza
vivafortaleza@tvopovo.com.br

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